Pandemia matou a crença em muitos setores de que home office não funciona

Por Alessandra Montin (*)

Além de mudar a maneira de nos relacionarmos com o outro, alterar nossa rotina e hábitos, a pandemia do coronavírus digitalizou o mundo que vivemos da noite para o dia. Fomos dormir e acordamos diante de um cenário que parecia cena de ficção, onde a nossa sobrevivência dependia de migrar grande parte da nossa vida para o mundo digital.

Com as empresas não foi diferente. Elas foram pegas de surpresa e precisaram tomar decisões que há anos vem sendo adiadas, como a importância de estabelecer o trabalho home office em muitos casos, adotar tecnologias que auxiliem no compartilhamento dos dados da companhia com todos os funcionários, entre outras tecnologias que facilitam o mundo do trabalho.

A verdade é que antes da pandemia havia muitas alternativas digitais e personalizadas para vários setores, mas sempre deixamos para depois, lamentando que “são caros para o orçamento da empresa” ou que sempre foi possível “trabalhar sem a ajuda dessas ferramentas”. Mas quando o a crise chegou, a necessidade mostrou que as companhias que estavam preparadas foram menos prejudicadas.

As outras precisaram se reinventar e ainda estão nessa reinvenção, tomando prejuízos para continuarem vivas.

Estamos vendo a telemedicina acontecer, escolas e professores sendo desafiados a mostrar que educação pode ser estabelecida no universo online, lojas físicas que estão dando um passo largo com a migração para o ecommerce. Não faltam exemplos de que o coronavírus deixou para traz a crença de que alguns setores nunca poderiam se tornar online.

A tecnologia nunca esteve tão presente, mostrando que ela é uma aliada na sobrevivência dos humanos, capaz de estreitar o isolamento físico, criar novas maneiras de trabalho e reinventar profissões. As empresas vão precisar lidar com todas as transformações que foram aceleradas pela pandemia se quiserem se destacar. As que não o fizerem, podem deixar de existir.

Um estudo da ESG, patrocinado pela Dell EMC, realizado com mil executivos de TI de companhias de grande porte ao redor do mundo, sendo 100 delas no Brasil, revelou que apenas 5% das organizações estão preparadas para a transformação digital, por meio de infraestruturas, processos e metodologias adequados.

Por mais que o momento seja desafiador, agora é o momento ideal para repensar valores, rever custos, apostar em softwares mais eficientes, big data, cloud computing, inteligência artificial e tirar do papel a tão falada transformação digital que foi postergada para um possível futuro.

As vantagens que o pós-pandemia traz para o mundo corporativo são enormes. Será possível contratar um profissional de qualquer lugar do planeta, afinal, as empresas já perceberam que a produtividade não fica trancada em quatro paredes de um escritório, ela acontece também no trabalho remoto.

Inclusive, o estudo “Tendências de Marketing e Tecnologia 2020: Humanidade redefinida e os novos negócios”, prevê crescimento de 30% do home office no Brasil após a pandemia. Por isso, é importante revisar os processos internos e compreender que a tecnologia é um ativo humano.

Agora, analisaremos muito bem se vale a pena se deslocar, enfrentar congestionamento para realizar uma reunião e se realmente é vantajoso investir em mobília e aluguel para manter um escritório físico. Estaremos em um mundo mais estratégico e assertivo e o mais interessante é que usaremos as mesmas tecnologias que já existiam antes da pandemia, mas agora de maneira intensificada e dando o devido valor.

O mundo já está em transformação e a forma de trabalhar já mostra grandes mudanças. Não podemos esperar novas quarentenas, medicamentos ou vacina para dar início a um processo que já está acontecendo. As empresas precisam encontrar uma nova forma de operar e colocar esse novo universo em prática. As que souberem fazer esse caminho, certamente, estarão com o futuro garantido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

(*) Diretora do LabData da FIA, consultora em análise de dados, Big Data e inteligência artificial e professora de métodos quantitativos e informática da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP)

Fonte: https://www.uol.com.br/tilt/colunas/alessandra-montini/2020/05/14/pandemia-matou-a-crenca-em-muitos-setores-de-que-home-office-nao-funciona.htm, acessado em 15 de maio de 2020.